28/10/2026

Indo além do consumo desenfreado de abóboras estilizadas e adereços plásticos do Halloween norte-americano, a matriz religiosa afro-brasileira oferece um acervo vivo de mitos e entidades capaz de transformar a data em um poderoso acontecimento pedagógico. Em novo artigo da série Dossiê Halloween na Escola, o Sinpro Santos mostra como a valorização da Umbanda e do Candomblé — a exemplo da subversão estética do “Saravá Metal” da banda Gangrena Gasosa — ajuda a descolonizar o imaginário escolar, combater o racismo religioso e cumprir a Lei 10.639/03 ao trocar o terror comercial pela força da ancestralidade nacional.

Na contramão da reprodução acrítica do Halloween euro-americano — pautado pelo consumo de adereços plásticos, abóboras estilizadas e uma visão simplista do terror —, a matriz religiosa afro-brasileira oferece um acervo incomparável de mitos, encantados e narrativas lendárias capable de refundar a data sob uma perspectiva profundamente nacional e emancipatória.

O Exemplo do “Saravá Metal”: Do Obscuro Importado à Força Ancestral

Para compreender essa transição, vale examinar o fenômeno da banda carioca Gangrena Gasosa e seu subgênero único, o Saravá Metal.

Tradicionalmente, o heavy metal anglo-saxão recorre a convenções da “magia negra”, feitiçaria europeia, diabolismo e ocultismo Vitoriano para causar choque e criar uma estética de mistério e rebeldia.

A Gangrena Gasosa inverteu essa lógica colonial: substituiu o panteão nórdico e as alegorias satânicas ocidentais pelas entidades e mitologias da Umbanda e do Candomblé. Em vez de Warlocks e demônios medievais, entram em cena o Zé Pelintra, Maria Padilha, Tranca-Rua, Exu Caveira e os Orixás.

Essa subversão estética prova que o imaginário sombrio e místico não precisa ser importado: a terra brasileira possui sua própria dimensão do sagrado, do misterioso e da ancestralidade, enriquecida pela musicalidade dos atabaques, pontos cantados e ritmos percussivos fundidos às guitarras.

 

O Misticismo Afro-Brasileiro como Matéria-Prima Pedagógica

Trazer o repertório das religiões de matriz africana para o contexto das celebrações de Outubro permite reconfigurar o “Dia das Bruxas” em um verdadeiro acontecimento pedagógico:

  1. Rompimento do Monopólio do “Assustador” Comercial

O Halloween mercantilizado reduz o mistério a bruxas de chapéu pontudo e zumbis de Hollywood. As narrativas afro-brasileiras e o folclore nacional oferecem uma cosmologia rica: o limiar entre os vivos e os mortos (Egungun), a proteção das encruzilhadas (Exu), a sabedoria dos ancestrais velhos (Pretos Velhos) e as forças da natureza personificadas (Orixás). Transforma-se o medo infantilizado em respeito e fascínio histórico.

  1. Combate ao Racismo Religioso e à Demonização

Historicamente, as práticas e simbologias de matriz africana foram criminalizadas e associadas pejorativamente à “magia negra” pelo racismo estrutural. Usar o ambiente escolar no período do Halloween para apresentar a complexidade mitológica, estética e filosófica da Umbanda e do Candomblé desmistifica preconceitos. Mostra-se aos estudantes que Exu não é o “diabo” cristão, mas sim o senhor da comunicação, do movimento e da transformação.

 

  1. Valorização da Cultura e Educação Antirracista (Lei 10.639/03)

Ao invés de a escola limitar-se a consumir produtos importados da indústria cultural do Hemisfério Norte, a data passa a cumprir as diretrizes da Lei 10.639/03, que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira. Trata-se de descolonizar o imaginário escolar.

Do Consumo à Construção Crítica de Saberes

Quando o Halloween deixa de ser uma vitrine de marketing e passa a dialogar com as matrizes africanas e o folclore nacional (como também ocorre no Dia do Saci):

  • A fantasia ganha significado: Deixa de ser um figurino sintético comprado em shopping para se tornar um estudo de personagens da cultura popular e da resistência ancestral.
  • A festa ganha memória: O culto aos mortos — presente nas raízes originais do Samhain celta — reencontra o respeito aos ancestrais (Ancestralidade e Egbé) que forma a base das culturas de terreiro.
  • O aprendizado ganha vida: A escola deixa de reproduzir a “Sociedade do Cansaço” de eventos espetacularizados e sem sentido pedagógico para promover a reflexão, a pluralidade cultural e o pertencimento identitário.

Substituir o clichê do pavor mercadológico pelo encantamento da nossa própria cultura é o caminho para transformar o festejo em conhecimento vivo.